Ora, a
posse integral de si próprio é impossível – por sorte, posto que, satisfeito,
cada homem seria o último da Terra, sem descendência, nem haveria obras ou
civilização. Somos muito dependentes do meio e da sociedade e, além disso, não
nos conseguimos conhecer diretamente: só no confronto com os outros é que
sabemos de nós. Conformar-se com isso? Bem, não há outro jeito. Porém, ainda
que aceitando a indispensável abertura para o outro, resta sempre um sentimento
de perda, básico e inevitável, como uma saudade de si mesmo, embora referente a
um estado de posse absoluta que nunca houve ou haverá. Será irracional talvez,
mas os homens são assim, nostálgicos precisamente do que tão-somente imaginaram
haver possuído.
[Trecho de "O que é psicanálise"]
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