"Ah, se eu pudesse me arrumar por dentro, tudo calminho nas gavetas." Lygia Fagundes Telles
Alfred era um conhecido vendedor de gavetas. Vendia gavetas na região boêmia da cidade. Sua loja ficava entre um supermercado e uma loja de armas.
Seu negócio era rentável, muitas pessoas o procuravam para comprar gavetas que pudessem guardar memórias, as mais velhas gostavam de catalogar suas memórias, por isso, compravam várias gavetas para montar uma cômoda em casa. Outras mais precavidas conectavam um pen drive à gaveta pra salvar as memórias no computador, eventualmente enviavam aos amigos. Mas, muitos gostavam da relação romântica com a gaveta, apenas salvavam a memória lá e costumavam abrir sozinhos para sentir o mesmo sabor, o mesmo cheiro. Era como se entrassem em um Universo Paralelo, era como se o passado ainda estivesse acontecendo em um lugar muito distante. Algo mais apurado que a nostalgia. Viam os fatos como realmente aconteceram e se espantavam com a atual percepção que tinham. Compravam novas gavetas e salvavam novas memórias.
Mas havia um caso mais extremo. Aqueles que compravam gavetas necessariamente pra "se livrar" de memórias, esquecer sentimentos. Alfred foi o pioneiro nisso.
Inventou o sofisticado sistema de engavetamento quando estava sofrendo por amor.
Já tinha tentado de tudo, um dia descobriu uma forma de transferir o que sentia ao objeto com certas especificidades que ele havia feito: uma gaveta especial! Não era apenas salvar memórias, era pôr ela nas gavetas, só nas gavetas pra não se recordar mais.
Ele pôs tudo o que sentia numa gaveta. Não salvou em pen drive, nem colocou a gaveta numa cômoda. Pegou o objeto e o incinerou.
Mas na cidade onde viveu, Alfred era apenas um conhecido vendedor de gavetas;
postado em 27/06/2011
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