"Havia
muita verdade na observação que um dia Nadine me fez: 'Nunca você se
incorpora à situação.' Eu observava as
pessoas com olhos de médica, o que me dificultava ter com elas relações
humanas. A cólera, o rancor... raramente sou capaz disso. E os bons sentimentos
que me demonstram não me sensibilizam. É de meu ofício suscitá-los. Devo
suportar com indiferença os resultados das transferências que opero e
liquidá-los no momento exato. Conservo essa atitude, inclusive na vida
particular. Conquistado o paciente, diagnostico logo suas perturbações
infantis, vejo-me tal como aparecia em seus fantasmas: mãe, avó, irmã, filha,
ídolo. Não aprecio muito as feitiçarias que me atribuem, mas devo resignar-me a
isso. Suponho que, se algum dia um indivíduo normal tivesse o capricho de
prender-se a mim, logo eu me perguntaria: Que será que ele vê em minha pessoa? A que desejos frustrados está procurando satisfazer? E seria incapaz do menor
impulso.”
(Anne Dubreuilh, psicanalista em "Os Mandarins")
Nenhum comentário:
Postar um comentário