quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Simone de Beauvoir

"Havia muita verdade na observação que um dia Nadine me fez: 'Nunca você se incorpora  à situação.' Eu observava as pessoas com olhos de médica, o que me dificultava ter com elas relações humanas. A cólera, o rancor... raramente sou capaz disso. E os bons sentimentos que me demonstram não me sensibilizam. É de meu ofício suscitá-los. Devo suportar com indiferença os resultados das transferências que opero e liquidá-los no momento exato. Conservo essa atitude, inclusive na vida particular. Conquistado o paciente, diagnostico logo suas perturbações infantis, vejo-me tal como aparecia em seus fantasmas: mãe, avó, irmã, filha, ídolo. Não aprecio muito as feitiçarias que me atribuem, mas devo resignar-me a isso. Suponho que, se algum dia um indivíduo normal tivesse o capricho de prender-se a mim, logo eu me perguntaria: Que será que ele vê em minha pessoa? A que desejos frustrados está procurando satisfazer? E seria incapaz do menor impulso.”
(Anne Dubreuilh, psicanalista em "Os Mandarins")

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